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24 de Agosto de 2019

Fascismo e nazismo; direita e esquerda

Hyago de Souza Otto, Auxiliar de Judiciário
Publicado por Hyago de Souza Otto
há 10 meses

Direita e esquerda não são conceitos de consenso; mesmo estudiosos costumam divergir sobre as posições e, via de regra, questionar espectros políticos de diversas formas de Estado implementadas ao longo da história.

Para definir os conceitos é necessário, todavia, retornar ao surgimento dos termos: Revolução Francesa. À época, o regime era dividido em "três estados": nobreza, clero e burguesia (alta e baixa burguesia).

Em 1789, em virtude do descontentamento do terceiro estado e de parte da nobreza na França com o modelo de Estado até então adotado (feudalismo) e com o poder absolutista de Luís XVI, a Revolução estourou, efetuando-se uma Assembleia Constituinte para redefinir o futuro da França.

À esquerda, situaram-se os jacobinos, os quais, liderados por Robespierre, tinham ideias muito mais radicais de mudança. Os girondinos, por sua vez, ficaram à direita; esses eram mais moderados e pregavam mais a conciliação.

Assim, definiu-se o ponto chave que diferenciaria esquerda e direita: revolução e conservadorismo.

Ao longo do tempo, outros aspectos foram sendo impregnados em cada uma das posições.

As propostas de Marx, já no século XIX, certamente influenciaram fortemente o pensamento revolucionário (de Esquerda), ressaltando uma busca incansável por "igualdade", que seria até os dias atuais atribuído ao pensamento de esquerda. Com isso, veio o pensamento coletivista e a ideia de direitos sociais.

Por outro lado, a Direita antagonizou as premissas marxistas, seja no aspecto social, com críticas aos pressupostos adotados por ele, seja pela pouca (ou nenhuma!) viabilidade econômica de suas ideias. Adotando-se o pensamento liberal, encabeçado por Adam Smith, a Direita passou sua perspectiva a liberdades individuais, limitando o poder do Estado, e ao indivíduo (contraponto ao coletivismo).

Estabelecidas tais premissas, os três pontos diferenciadores que distanciam os pensamentos de direita e de esquerda, respectivamente, são: conservadorismo versus progressismo; liberdade versus igualdade; individuo versus coletivo.

Ressalte-se um equívoco muito comum: a ideologia de esquerda não se resume ao pensamento marxista; pelo contrário, aquela precede a este. Aliás, o pensamento revolucionário é muito anterior à própria revolução francesa e, ousa-se dizer, sempre existiu.

Nos dias atuais, aviventaram-se discussões sobre espectros políticos de estados totalitários da história. Há, sobretudo, dois modelos atribuídos ora à direita, ora à esquerda: fascismo e nazismo.

Inicialmente, é importante ressaltar um fator chave e que deve pautar tal discussão: ser de direita ou de esquerda tem pouca relevância para as atrocidades cometidas por um regime.

O grande equívoco na tentativa de colocar tais regimes à direita ou à esquerda é utilizar premissas erradas, como nacionalismo, autoritarismo ou militarismo. Ora, tais características não têm absolutamente nenhuma relação com espectro político.

A URSS era evidentemente comunista, tinha um nacionalismo extremamente arraigado e seu regime era autoritário. Hugo Chavez era militar, nem por isso, o regime implementado na Venezuela foi de direita.

Dito isso, importante ressaltar que os regimes fascista e nazista tinham grande traço de intervencionismo econômico governamental. Na Alemanha, preços chegaram a ser tabelados e fiscalizados pelo governo. Foram realizadas reformas trabalhistas e, por outro lado, fechados sindicatos, fundando a Frente Alemã para o Trabalho, controlando tudo.

No fascismo de Mussolini, além de grande intervencionismo econômico, os direitos trabalhistas foram hipertrofiados e os sindicatos ganharam força, desde que vinculados ao regime, maneira para controlar determinadas forças coletivas.

O diploma normativo trabalhista fascista da época, Carta del Lavoro, de 1927, aliás, inspirou a CLT de Vargas, vigente no Brasil até os dias atuais.

Portanto, resta evidente que traço de liberdade, seja econômica, seja social, era extremamente baixo em tais regimes. Isso pode derivar justamente da necessidade de centralização do poder e imposição das vontades do governante por um autoritarismo.

Os traços de individualismo também são de difícil visualização em tais regimes nazista e fascista. Uma vez que a perspectiva era mais nacionalista, a balança penderá para o coletivismo e, sobretudo, para os direitos sociais, em uma busca de melhora de condições trabalhistas e financeiras do povo, embora esses direitos sociais fossem desvestidos da noção de Direitos Humanos contemporânea que só adveio pós Segunda Grande Guerra.

A verificação do aspecto conservador para a definição de um regime só se dá por uma perspectiva da época; caso a proposição quando da transição seja uma mudança gradual e lenta de valores ou de modelo, pode-se dizer que é uma alteração conservadora. Se, por outro lado, for repentina e extremada, terá um traço revolucionário e, portanto, de esquerda. É, portanto, uma análise demasiadamente complexa e difícil de ser feita após décadas.

Afinal, qualquer regime visto após décadas poderá ser visto como conservador; não por sê-lo, mas porque os costumes da época eram certamente muito diferentes do que os adotados atualmente.

A questão é que, desde Gramsci, a "Revolução" já não é mais pregada de tal maneira, impositiva e rápida. Antonio Gramsci propôs que a mudança deveria ser cultural, por infiltração e ocupação de espaços, o que poderia levar a crer que até mesmo a esquerda passou a adotar uma ideia mais conservadora de mudança.

É, portanto, de difícil (ou quase impossível) estabelecer que nazismo ou fascismo possam ter sido de "direita". Também não é simples dizer que tais regimes foram de "esquerda", pois há certamente pontos que divergem do pensamento progressista, especialmente o atual.

Veja-se que o ponto principal que os caracteriza e criou efeitos tão nefastos não foi ser de esquerda ou de direita, mas, sim, a centralização de poder e o totalitarismo.

Deixando de lado qualquer discussão sobre espectro político, seja de um lado, seja de outro, nenhum dos dois deve e será repetido.



6 Comentários

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Pois é Hyago,

Parece que o pt está exatamente se propondo a estabelecer um sistema de poder e não de governo para o povo.

O barbudo, hospede honorável da cadeia, lá em Curitiba, e seus asseclas não nos dão paz. Fazendo de tudo mentindo e complicando tudo que conseguem.

Lembram o passar de uma gambá deixando seu rastro fétido e desagradável. O pior é que os nossos ilustres brasileiros que votam parecem que estão tolhidos de inteligência e percepção de uma realidade nefasta que nos oprime e nos desconcerta.

A realidade de que grande parte do comércio ou faliu ou se fez menor e a s pessoas que aumentam as filas dos desempregados e daqueles à margem da dignidade humana só aumentos atingindo um número alto demais para um país estável.

Esses militantes "luláticos" parecem que estão impregnados em todos os setores, até mesmo na alçada das togas, onde o julgado e revogado, pela mesma toga, somente confunde e facilita aqueles que "criaram" a Constituição Cidadã, que estabeleceu o caos jurídico e a instabilidade política, econômica dos cidadãos de bem, de nós simples brasileiros.

A cada dia despertamos mais enjoados, enojados e desencorajados a uma vida em que a realidade seja profícua.

Cada voto errado custa mais do que simplesmente eleger um político errado, pois ele se imiscui em todos os cantos, políticos, educacional, familiar, enfim, em todo e qualquer lugar que gera a instabilidade proporcionando, a eles, o caos necessários para inverterem as acusações, acusando os outros de seus próprios comportamentos.

Atualmente enfatizam que "Bolsonaro" é fascista; mas acho que poucas pessoas se deram ao trabalho de ir ao TSE, baixar e ler o proposta/programa de governo de cada candidato, e buscarem entender o que está sendo dito, da inversão da ordem das coisas e dos valores reais. continuar lendo

O Brasil está infectado e essa bactéria se chama PT.
Bolsonaro aparece como um antibiótico, que pode combater a bactéria mas também pode causar danos. Isso ainda não se sabe ao certo.
Para fortalecer o Brasil e aumentar sua resistência a essas bactérias, o alimento se chama educação.
Nenhum outro. continuar lendo

Eu não vejo sinais significativos de nazismo ou fascismo no Brasil de hoje.
Vejo uma pseudo esquerda mal intencionada, aproveitando-se da ignorância de grande parte da população para aplicar o golpe do curral eleitoral, já conhecido em outros países com nível cultural da população baixo, notadamente na América Latina. Mas é uma esquerda com lideranças de tendência ladina, que de melhor arma possui apenas a falácia, largamente utilizada.
Já a direita radical busca o poder pela força, pela opressão direta, sem perder muito tempo com discursos. Esta opressão virá depois também pela esquerda, quando se sentir estabilizada, pois nesse momento terá se transformado em uma direita radical disfarçada.
E o socialismo, como fica nesse meio?
O socialismo virá com o tempo, mas ainda estamos muito longe para que ele seja possível.
O socialismo não é meio, é fim, é fruto.
As pessoas não serão socialistas para serem iguais e sim, precisarão se tornarem iguais para atingirem o socialismo. Talvez o termo socialismo nem seja mais utilizado quando acontecer.
Antes disso passaremos por guerras sociais que já se anunciam, passaremos por novos modelos de sociedade, passaremos pela qualificação humana, pela redução populacional, pelo controle objetivo de cada vida.
Não acontecerá por imposição e sim por evolução e quando falo em evolução, não falo em termos românticos, mas reais, falo na evolução que o tempo e os fatos trarão, efetivamente.
A tão sonhada liberdade dos dias de hoje será substituída pelo conhecimento, pela cultura de que não existe liberdade plena na vida em sociedade. Existirão sim muitas obrigações e os direitos deverão ficar quase imperceptíveis e sequer terão algum valor.
Qualquer promessa socialista antes desse tempo, será mera utopia, engodo, falácia e não se sustentará.
Premonição? Posse irrestrita da verdade? Não...
Apenas minhas conclusões. continuar lendo

Ou seja, em qualquer das situações mencionadas: DITADURA. continuar lendo

José Francisco.

Sim, essa é a tendência SE a população não se fizer ouvir e participar ativamente do jogo político.
Democracia é um estado instável que precisa ser cuidado a todo tempo.
É como uma flor em um vaso. Abandone-a e morrerá pela seca, falta de nutrientes ou sufocada pelas ervas daninhas. continuar lendo

@hyagootto, eu vim complementar com um pensamento que tenho há algum tempo.

Tentar classificar qualquer coisa, incluindo ditaduras (todas elas), em algum espectro político, é algo absolutamente anacrônico e eu explico brevemente o porquê.

Enquanto as pessoas se digladiam para tentar colocar nazismo e fascismo em algum lugar dos extremos (da direita ou da esquerda), ninguém jamais ousou pensar em enquadrar Stalin como de extrema direita. É consenso que o governo dele é de extrema esquerda.

Porém, em algumas características do stalinismo, temos:

a) intensa presença de propaganda estatal e exacerbado nacionalismo (lembrando que o socialismo/comunismo preconizado por Marx abomina qualquer tipo de nacionalismo)
b) culto à personalidade dos líderes do Partido e do Estado (que, de acordo com o ateísmo marxista, seria algo impensável, que criticava muito o culto a qualquer deus e, consequentemente, a qualquer personalidade);
c) perseguição das religiões e igrejas estabelecidas (lembrando que perseguição a grupos é característica de grupos de extrema direita)
d) militarização da sociedade (que também é característica muito cara a governos de extrema direita)

Por outro lado, se pensarmos na ditadura brasileira, que é considerada um movimento de direita/extrema direita, podemos pensar em:

a) "milagre brasileiro", em que ocorreu o crescimento econômico mediante pesado investimento em indústrias de base e, principalmente, empresas estatais, com aumento de gasto público (e que redundou na inflação galopante no final dos anos 80), atitude econômica tipicamente de governos de esquerda;
b) doutrinação escolar, atribuídas à esquerda, foi promovida pela introdução da educação moral e cívica;
c) centralização de decisões no poder executivo, como foi possível ver, por exemplo, na edição dos Atos Institucionais e na elaboração da Emenda Constitucional nº 1/1969, centralização esta que regularmente é atribuída à esquerda.

Isso tudo para dizer que querer encaixar uma pessoa, uma ideia ou até mesmo uma ditadura ou democracia como direita e esquerda só fazia sentido na época da Guerra Fria, e ainda tenho aqui minhas dúvidas. É um anacronismo sem tamanho, pois ao atribuir algo ou alguém à direita ou à esquerda acaba atribuindo, também, o "pacote" que esse rótulo traz, e dificilmente corresponde à realidade. continuar lendo